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Pensamentos e invenções.

...tudo invenções.



Sábado, 07.03.15

Arroz de peixe

O Cozinheiro esvoaçado num avental branco, em guerra, armado de fogão de bicos a gás, luminoso chama a dividir-se em pedaços azuis assoprados em tacho de peixe, arroz de peixe feito na hora.

 

Uma hora é muito pouco porque o apuro é lento e consome tempo; a qualidade gosta de tempo e o cozinheiro tem alma apurada.

 

- Então, esse arroz, vem ou não vem?

 

Santiago afiançado por ser freguês certo, com poderes instituídos pela regularidade e dinheiro sonante pagador de contas em todos os dias dos seus dias de trabalho, sem precisar de caminhadas por ser logo ali, em frente e de forma conveniente como lhe acertavam os passos na hora combinada de dar folga e alimento ao corpo. Hoje era peixe como noutros dias, mudava o preparo como ditado por quem engendrava planos de papel escrito a fregueses como uma carta suserana: hoje é isto, ontem foi aquilo, amanhã se verá o que dizem fornecedores e das lembranças do cozinheiro. O almoço é garantido.

 

Santiago corria pranchas equilibrado em pernas sábias de desengonços. As costas carregavam sacas de sal em corpo a fervilhar sem dar conta de esforços, cada músculo a seu tempo, sem crispações que o tempo é bom professor e Santiago aluno bem formado por quarenta anos de estiva, para estes ou outros fardos, sem uma queixa ou um dia perdido em problemas de corpo, muito menos de espírito que a sua alma era saudável e impermeável a suspiros ou resignações: teimava sempre, mantinha-se saudavelmente teimado nesta vida sem consequências que não a de carregar o fardo de outros em proveito da sobrevivência, dele e da patroa a reinar lá em casa porque filhos não tivera e as mulheres entretém-se como qualquer coisa.

 

Clientes anónimos noutras mesas sem uma fala, aguardando pacientemente outros pedidos, alguns arroz de peixe, mas não como o de Santiago que era costumeiro e não se enquadrava na horda de forasteiros ocasionais, prontos para trair noutro restaurante o refogado feito com cebola de Bucelas picada, dois dentes de alho de Mafra, um fio de azeite de Elvas, vigiados por Salomão, o rei do peixe em arroz como todos sabiam.

 

Nove minutos de cozedura, sem tempo contado pela experiência de Salomão, famoso em Setúbal mas sem a aprovação de Santiago naquela hora pela demora. Ali era Ele quem mandava, aquele espaço de mundo guardado às suas ordens. Ali podia ditar e esperar ser cumprido de desejos mesmo que fúteis como o guardanapo em falta ou o copo rachado. Ali, o Santiago, nascido e criado entra barcos e descargas, era quem falava mais alto. Também poderia reinar em casa quando vinho tocava a sua alma e se desgovernava em palavrões semeados na paciência da patroa, mas não era como ali, local onde o dinheiro comprava o poder de se sentar à mesa e pedir, exigir o que a conta de cada dia lhe permitia saborear.

 

Garfadas sôfregas e fumegadas entrando em boca aberta; um naco de pão a ceifar molho; a cabeça baixa encurtando caminhos, os olhos gravitando em hipnose, um homem transtornado na hora de proventos de corpo como uma fera de dentes cravados na presa a desafiar mundo. Santiago ausente de sentidos sem sabor, comandado por instintos guardados no mais fundo da gente, com um quartilho à sua frente em promessa de empurrar côdea de pão encharcada, sorvido de copo transparente no vidro a guardar a ultima viagem daquele néctar digno dos deuses para o momento.

 

O restaurante mastigado, mandíbulas em trabalho árduo quase ao desafio de um espaço no tempo contado. Vozeirão, conversas como uma ladainha e dedos apontados, braços a desenhar no ar sem consequências exposições, cada um na sua fala e as pratadas servidas ao momento pelo fiel criado no ponto alto do seu dia, a encher bandulhos de restaurante apinhado, mesas de fórmica em cores, cadeiras de pé fino, um tubo preto retorcido e parafusos niquelados a suster tampos de assento; fino e moderno são as toalhas de papel branco imaculado sem lembrar ao diabo serem árvores abatidas e amassadas em desenhos antiderrapantes. Os copos são de vidro e lavados à mão num repente despachando-se um dúzia num instantinho, mesmo a tempo de mais uma e outra disposição escorridos ali naquela bandeja inoxidável.

As bebidas exposta são para uso do estabelecimento, aguardentes das mais variadas marcas escarpadas lá no alto a sugerir stock enquanto a outra, a verdadeira garrafa do bagaço com um bico metálico cromado alimentada de um garrafão através do funil de plástico azul, a fazer funções iguais sem precisar de estampa e selo que o governo gosta de selos estampados em garrafas e em tudo o que tenha álcool excepto nos alcoólicos porque são consumidores finais, tal como estes aqui em bando a pedir mais isto e aquilo; uma carcaça, encha o copo que isto está a pedir pinga dizem enquanto limpam as beiças com guardanapos de papel dobrados para o momento.

 

Setúbal é terra de bom vinho e ali, o lema da casa acrescentava ser o freguês também dono da sua qualidade.

 

Santiago já arrota. Não tarda a nota de vinte escudos atirada para cima da mesa com displicência de quem está certo de a poder gastar, testemunhando satisfação. A bica e o bagaço, os beiços limpos na ponta de lenço amarfanhado a espreitar o bolso direito, o mesmo de serventias na limpeza de suor escorrido entre carregos e que há-de ter uso até que a patroa dê conta do seu estado. No bolso traseiro a carteira de duas molas comprada na feira de Setúbal à um ror de anos - bom material como dizia o mirar perdido nos olhos de Santiago em ocasiões propícias. Destas já não se fazem, agora é tudo de plástico e os amigos precisavam de saber sempre que se lembrava. Lembrou-se agora pelo desencontro dos dedos com a carteira, não estava no bolso habitual mas estaria noutro.

 

Levantou-se, curvando-se ainda para o último gole de bagaço antes de uma inspecção mais meticulosa ao bolso em falta por não possuir carteira. Talvez o bolso contrário e as mãos a percorrerem depósitos de calças e camisa; o corpo remexido em palmas de mão expectantes de uma protuberância capaz de fazer adivinhar o objecto, mas não, não apesar de sucessivas inspecções: não tinha carteira, tinha comido e não tinha carteira. Tinha dado ordens sem possuir dinheiros; talvez debaixo da mesa, a cadeira desarrumado, um olhar em redor à procura de um larápio e as mão novamente em pesquisa aproximando-se o empregado com modos inquisidores, parado à espera de uma declaração, com um pano pendurado de uma mão e na outra nada, descaída de travessas e pratos a aguardar ordens do restaurante porque só era uma mão e a outra sem a poder lavar por causa do trapo de limpar mesas.  

 

Um empregado de mesas desconcertado por não ter missão. Santiago olhava agora de soslaio e atreveu-se a dar a carteira como perdida ou esquecida sabe Deus onde. Uma assombração, dias e semanas, meses e anos aquele ali, fiel pagador a manchar as sua honra, já viu nos bolsos?! Via novamente, apalpava novamente a fazer prova da busca, intensificando até os movimentos, tirando os fundilhos para fora não fosse alguém pensar tratar-se de uma simulação.

 

Quem vê caras não vê corações e o empregado teria o rosto crispado mas o coração  quente, enternecido até como o aborrecimento e não se preocupe porque amanhã era outro dia. Mas não era, ainda não era porque não se proferia a declaração de desculpa, ainda se olhava a eternidade, não se pensava em desfecho apesar deste ser claro como a água límpida a jorrar da torneira para mais uma dúzia de copos lavados em instantinho.

 

Contornava-se o Santiago e levantava-se a mesa amarfalhando toalha e guardanapo sem uma pergunta sobre objectos imaculados. Ia tudo para o lixo, os cuidados de uns trocados pela insensibilidade de outros, um bocado de árvore no lixo sem outro proveito do que enfeitar mesas, aqueles papéis feitos numa bola quase perfeita jogada como para um cesto sem qualquer ponto marcado, o copo do vinho e o copo do bagaço em direcção ao jorro de água alguidarada, talvez outro bagaço para suavizar o momento mas a falta de verba a impedir esta e outras consolações ficando Santiago sem planos sobre acontecimentos mais ou menos imediatos por não ter comparações na sua vida que possam ajudar a uma decisão. Fosse ele outro e teria dito olhe esqueci a carteira mas não se preocupe que amanhã é outro dia e será pago a dobrar. Mas não, ficava por ali especado à espera da ordem que tratava e o empregado a rodear mesas e cadeiras tomado pelo impulso súbito da ordenação de mesas e cadeiras, tudo perfilado, soldados a aguardar outros almoços, serventias da casa como as garrafas penduradas: tudo para uso e consumo do estabelecimento, às ordens do freguês pagando este com dinheiro: não se aceitavam promessas e apesar de não estar explícito, todos sabiam.

 

No outro dia o Santiago faltara à sua palavra, não tinha acontecido outro dia. A tarde do dia anterior dorido no corpo por carregos subitamente pesados. A consciência demasiado pesada, dois fardos insuportáveis mas a tarde extinguiu-se lenta e preguiçosa adivinhando maré baixa no Sado e a alma dos homens correando a virtude de ter casa. Santiago arrastado, mais sisudo do que o habitual não dando troco a colegas de prancha. Perdera a carteira de molas tinham a certeza e sentia em si um desgosto crescente e uma culpa desmensurada. Pagaria o almoço e deixava de frequentar a casa. Não poderia regressar àquele lugar de predição, dar de caras com aquelas gengivas sem dentes e redemoinhos de pratadas assente naquelas mãos assim em vaidades de toma lá comida e vê se pagas hoje porque já falhaste e portanto não és de confiança. Um dia não são dias mas um homem é aquilo que mostra e os homens estão sempre a mostrar aquilo que não são.

 

Disseram depois ter sido de repente durante o sono e que por isso não tinha sofrido. Uma morte santa dizia a comadre e a patroa conformada por ter passado a viúva. Não somos nada que o meu homem estava igual ao homem dos outros dias e finou-se sem um ai que ele não era de se queixar Deus lhe tenha a alminha em descanso.

 

Dera todas as ordens da sua vida naquela tasca a meio do dia, nada mais estaria dependente assim da sua fala grossa a inventar pretextos de sirva-me aqui e com respeito porque o meu dinheiro manda muito, a carteira é grossa, um fita de vaca curtida e dobrada à conta do seu feitio, duas molas cromadas em orelhas de abas a certificar a qualidade do objecto, daquilo já não se fabricava e por cautela até tinha inscrito o seu nome como sendo Santiago de Setúbal proprietário daquela carteira agora a viajar em direcção a mares mais a sul no porão de cargueiro.

 

Os objectos têm vida poderia dizer o incauto negro a estivar o que outros estivaram mas agora borda fora. Sal do mundo com origem em Setúbal a navegar embandeirado por cargueiro em companhia de carteira de molas cromadas embarcada sem destino porque um objecto perdido vai à deriva em brusca de um dono novo ou do esquecimento se o lugar da sua perdição seja fora dos olhos do mundo.

 

Tinha um papel e umas letras, algumas moedas também sendo que o papel era uma nota de vinte escudos como reconhecido pelo mestre de marear e naturalmente confirmado pelo comandante a tomar nota do achado e a prometer a si devolver a peça numa oportunidade de regresso a Setúbal. Por agora continuava-se com outras cargas porque nem só de sal vivem os fretes entregues àqueles monstros de chapas mantidas a rebite como já não há e soldadas em anteparas firmes para qualquer mar.

 

Navegar: o mar encrespado a trazer esquecimentos em viagens de sulcos, ferimentos em vagas rasgadas pelo casco pontiagudo às ordens de quem contratava. Seria um tempo de viagens, o tempo era o pirata dos mares e o comandante sem preocupações maiores do que manter bom rumo em travessias planeadas com sal ou tudo o que caiba em porões de ferros curtidos a ferrugem.

 

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por Manuel Alonso às 23:38



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